privatizado

já não me preocupo com as engelhas do ventre
que esse
apenas denuncia a carne desnecessária

já não me preocupo com a diminuta vontade de crescer
a ideia ainda flui
como uma barata tonta na confusão das estações

já não me preocupo com a virtuosidade dos rostos que dançam em sonhos velhos
como as traduções que esbarram numa arena sem orçamento
com fios verdes de lã
que não remendam nem o mais ínfimo buraco da minha confusão

já não me preocupo com o desassossego

os sonos são pó de xisto aglomerados em calhaus pesados
onde pés repousam ao bel-prazer das negligências hodiernas

já não tenho pés que subam além do íngreme seio
da silhueta abandonada na imensidão do deserto
onde o silêncio estagna
depois da última erva esturrar no calor da esperança desmedida

já não tenho olhos que alcancem
mais do que a fresta colada na porta dum lupanar em ruínas
de onde sai o eco do fim dos tempos

sons pesados que me arremessam contra a janela duma vida de papel cartão
com figurinos que se confundem com o branco total

já não me preocupo com o nada

aquele vácuo cheio de esperanças
com um miolo de modelos
de epílogos colados no tempo
tal a paisagem das ruas de Nápoles

modelos que subjazem como figurantes histriónicos na minha antiga memória que já não ruge
senão nos ventos furiosos do Vesúvio
que enchem de cinzas a minha aba latina

já não me preocupo com as bandeiras coladas em frontões de plástico
repisadas com palmas de mãos mal lavadas
pelos frémitos do nacionalismo

quero viver apátrida de tudo

ferool

2 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

Meus cumprimentos ao mestre Fernando Oliveira, onde numa única frase (já não me preocupo com o nada) destes versos lido aqui, ele completa tudo na forma do (privatizado ). Com admiração,
Efigênia Coutinho
Presidente Fundadora
AVSPE
www.avspe.eti.br

fernando oliveira disse...

Efigênia, cara confrade:

Agradeço os teus cumprimentos, é bondade de mais apelidar-me de mestre. Mestres somos todos. São os nossos escritos que reinarão no reino da literatura, não as pessoas. A admiração é reciproca.
Mais uma vez obrigada pelo teu comentário.

Fernando Oliveira